quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O dia em que senti vergonha da Bíblia

"...Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?" - Atos 2.11 

"Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" - 1 Pedro 2.9

Eu gosto muito de ler a Bíblia. Tenho uma que considero de cabeceira, apesar das várias versões que tenho. Quando decoro versículos, quando estudo mais seriamente uma passagem e em diversas ocasiões sempre recorro a ela.

Desde que me converti, me alegrei com sua companhia. Temos sido amigos íntimos: íamos ao culto juntos, viajávamos juntos e, mesmo com os traços de idade e o desgaste do tempo, ela ainda está aqui comigo com seus rabiscos, cores, ícones e marcações que desenvolvi.

Lembro-me de que uma vez, eu e minha mãe fomos à casa de uma senhora idosa, amiga da família, cujos alegria e sorriso eram constantes mesmo nas maiores adversidades. Muito religiosa e receptiva, ela era sempre disposta a ouvir falar de Deus; católica devota, ainda benzia quem a procurasse -- uma pessoa simples, carinhosa e que, na sua luta pela sobrevivência, talvez nunca tenha frequentado uma escola na vida.

Lembro-me de que pedi-lhe para ler uma passagem da Bíblia: uma daquelas em que Jesus curou alguém, porque ela própria estava enferma. Eu comecei a lê-la muito animado e, à medida que lia, vi quantas palavras pareceriam desconhecidas ou confusas para uma pessoa de pouca ou nenhuma educação como ela.

Obviamente eu iria comentar o texto em seguida, mas fiquei envergonhado de me sentir obrigado a simplificar palavras que a tradução poderia ter evitado a fim de comunicar uma verdade tão bela e essencial. Saí com um sentimento agridoce, pois vi que a versão que quase falava a minha língua -- porque o dicionário também frequentava nossa roda de amizade -- não falava a língua de muitas outras pessoas, principalmente das mais necessitadas. Eu estava num gueto e não sabia.

Desde então, apesar de conviver com minha "versão de cabeceira" em casa e no púlpito, tenho usado outras versões para evangelismo e também nas atividades da igreja, mesmo vendo algumas pessoas que torcem o nariz para novas traduções, e até mesmo uma visitante -- que não sei de onde raios saiu -- para mandar meu melhor amigo jogar uma paráfrase dele no lixo em plena Escola Bíblica Dominical.

Se nossas Bíblias não falarem a língua no povo (como Deus costumava falar), vamos esperar pacientemente que os de fora se acomodem ao nosso grupo de amantes de preciosismos linguísticos sagrados anacrônicos e carente de comunicação fluente, para, só então, descobrirem a (nossa "hermética") palavra de Deus.

Por Avelar Jr.
Também publicado no Não, Obrigado!

3 comentários:

Kscr disse...

Interessante! Eu tb tenho minha bíblia de cabeceira e outra com linguagens mais "entendiveis" para poder repassar pra as pessoas diferentes de mim!

As pessoas deveriam ter mais amor pelas almas e pela verdade, do que pela linguagem que a bíblia foi traduzida. Não importa se é "ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco intensamente" ou "ó Deus, tu és meu Deus, de madrugada te buscarei" ... a essência não é o português bem "dizido" ou formalmente escrito, mas entender a necessidade de buscarmos Deus...

Filósofo Calvinista disse...

Excelente texto. Afinal, não foi por isso que os reformadores lutaram? Pela bíblia na língua do povo? Lingua do povo significa aquele que o povo entende, então, tá valendo. Só precisamos tomar cuidado com alguns exageros de traduç~eos na linguagem de hoje que acabam comprometendo o verdadeiro sentido, fora isso tá tudo certo...

www.filosofiacalvinista.blogspot.com

Rafael_Tomazini disse...

É por isso que a obra de Deus tem ministros da palavra, a fé vem do OUVIR a palavra de Deus. Não creio que a palavra deva se adaptar à ignorância, creio que a ignorância deva se adaptar à palavra.

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