quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Deus nos livre de um Brasil Evangélico

Ricardo Gondim

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadú? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Fonte: [site do Ricardo Gondim]

9 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Quem também critica muito a Rede Globo do clã Marinho são as dondocas progressistas e a esquerda governista. Chamam a Globo de Partido da Imprensa Golpista. Não é à toa que essas mesmas dondocas e esses mesmos esquerdistas elogiam a governista Rede Record, não por acaso a TV do bispo Edir Macedo.

Samuel disse...

Vocês que gostam do Brasil ou do mundo do jeito que estão, torçam para não fazerem parte do reino de Deus.

João Paulo Fernandes disse...

Se isso for uma prece, logo digo...amém!

Silas de Souza disse...

O Brasil evangélico já sei que não veremos, mas seria tão bão ver Ricardo Gondim convertido e não falando tanta besteira..

Sammis Reachers disse...

Um mestre em jogar com as palavras. Em inocular não nos que não possuem filtros, pois estes felizmente sequer compreendem o que ele quer dizer, mas sim naqueles cujos filtros venceram (foram vencidos), tornados porosos demais para segurar o que deveria ser retido… os pseudo-intelectualizados, os que não se sabem, não suportam-se pseudos. E isso não deixa de ser um dom.
Propondo tolerâncias várias, o teísta mente aberta não se constrange por colocar muitos cristãos no mesmo saco ‘evangélico’, palavra essa tornada maldita, sinonímia de ‘Neanderthal’ ou o que o valha. Francamente! Homem de muitos pesos, várias medidas, camufladas em seu jogo, em seu poker verbal e vencedor (vide comentários).

Jogarei com palavras também, o jogo é bom:

Parabéns ao autor, pelo amor que tributa a tudo de bom neste mundo, afinal o melhor dos mundos possíveis. Ou não? Com a palavra, Jesus. Aquele que um dia vai reduzir este melhor dos mundos possíveis a pó de pó de pó de pó atomizado.
Como o autor, também não consigo conceber um mundo chato sem as doces melodias do Chico, sem os sonetos lusofonamente imbatíveis (quiçá em Camões?) do Vinícius, um mundo chato sem Whisky e adultérios… Ainda bem que Jesus já concebeu, e este Novo-Mundo-Sem-Chico-e-Sem-Vinícius (contra tudo, mas por todos os que o desejarem) poderosamente vem.
Quem não ajunta espalha, ensinou o Jesus Revolucionário, e ensinam as professorinhas para as crianças nas EBI’s das igrejas. Voltemos às EBIs, se tivermos coragem. Não temos. Não temos.

Thiago disse...

Eu juro que não entendi onde o autor quer chegar com este texto e estou na dúvida se tal texto não é uma sátira. Peço que o irmão reflita em 1 João 2:15-17. Essa passagem reflete não só o meu pensamento mas o pensamento claro e evidente do Senhor.

Uma outra observação é quanto ao preconceito adotado pelo autor. Tenta passar uma imagem de que todo evangélico é extremista.

Jonas Terceiro disse...

Muito bom, concordo.

salviano disse...

Eu acredito que Deus criou o homem e deixou o manual de instrução, a “BÍBLIA SAGRADA” que é a palavra de Deus,” e não produtos enlatados, eu costumo dizer que: “As pessoas precisam parar de comer tudo o que dão. E começar a questionar! ” Alguém escuta alguma coisa de alguém, e saem falando, sem questionar, sem saber se é verdade ou não. As pessoas precisam se perguntar! Será que a minha crença esta de acordo com a lei de Deus? Será que a religião que eu nasci sempre me falou a verdade? Será que tem uma seqüência para salvação? Religião salva alguém? O que é pecado contra o próprio corpo? O que é caminho da carne?
O que a bíblia diz sobre: Idolatria, o que a bíblia fala sobre imagens e esculturas? Quando uma pessoa morre pra onde ela vai? Ela volta? Crer em Deus é fato! Mas se eu não aceitar Jesus, se eu não confessar Jesus como meu único salvador, mesmo assim serei salvo? Qual é o verdadeiro batismo e a verdade sobre a ceia do Senhor? Quebrando maldição, como assim? Ganhar o mundo inteiro e perde a sua alma? Essas e outras perguntas e resposta você vai encontrar no site. www.aunicaverdadeemsuapropriabiblia.blogspot.com “Seja sua bíblia de católico ou de evangélico.” Você pode dizer, eu já estou salvo amém! Vamos atrás de quem não esta, divulgue este site, fale para outras pessoas, por que “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns têm por tardia: mas é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.” II (Pedro cap 3 ver 8) e “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. (I A Timóteo cap 2 ver5e6) Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, e a morte e mal. Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, que tenho proposto a vida e a morte, a benção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas... (Deuteronômio cap 30 ver 15 e 16)
Quer saber mais acesse:
www.aunicaverdadeemsuapropriabiblia.blogspot.com
“Seja sua bíblia, de católico ou de evangélico.”

Sheila Carvalho disse...

Deus nos livre de um Brasil Evangélico? Não, Deus nos livre de um Brasil ou melhor um mundo SEM evangélicos. O Brasil é do SENHOR.... ops o MUNDO

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