quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Enquanto Jesus escrevia na areia...


Certo dia estava num momento devocional, lendo a Bíblia, mais precisamente nos versículos do capítulo 8 de João e, durante a leitura, comecei a imaginar a cena ali descrita, ao mesmo tempo em que fazia minhas reflexões a cerca do comportamento daquela sociedade.

A princípio, já se ouviu muito falar sobre o texto em questão. Mas minhas observações afloram quando comparo o texto da época de Jesus para com o que muitas vezes vivenciamos não só na sociedade civil, mas também dentro de nossas igrejas. O que me impressiona, é o fato de como o texto parece nos falar diretamente aos dias de hoje, como se o tempo pouco houvesse mudado.

Lendo o texto (João 8 1-11), é fácil perceber que a sociedade que se dizia “temente a Deus”, trouxe uma mulher à presença de Jesus e dos demais, para expô-la à vergonha pública por seus atos, como se a lei estivesse acima da vida humana e de todos. Escribas e fariseus, interrogavam a Cristo no intuito de encontrar um álibi para também o acusarem contra a lei. Pois era do interesse, tantos dos escribas - conhecidos por serem doutores da lei -, quanto dos fariseus, que Jesus perecesse de morte. Pois para eles, Jesus era um homem perigoso, por colocar em xeque as instituições e, principalmente, as leis judaicas. É neste momento que Jesus se inclina e começa a escrever na areia, como um sábio que tem algo a dizer diante do mar de hipócritas que ali se faziam presentes e que torciam para ver um fim trágico para aquela mulher.
Enquanto Jesus escrevia na areia, o legalismo do farisaísmo imperava nos corações dos que estavam prestes a cometer uma barbárie, como se aquela mulher fosse inferior aos demais por causa do pecado que vinha cometendo no seio da sociedade. Quando já estava arrodeada pelos acusadores, cada um com uma pedra (ou mais de uma) nas mãos, onde a vida estava a mercê de homens carregados de perversidade, inflamados pelo desejo de ver a lei sendo cumprida através de um julgamento popular e impiedoso, Jesus então se levanta, encara o inferno face a face vivido por aquela mulher e lança ao ar uma pergunta que transforma os corações de pedra, em carne.

A pergunta de Jesus soou como um vento impetuoso que invadiu o intelecto daqueles que valorizavam a lei, e assim os fez enxergar o pecado que estavam exalando, e o que viriam a cometer logo em seguida, que seria a coletivização a serviço da barbárie. Enquanto Jesus escrevia novamente na areia, a covardia deu lugar à reflexão, o momento de ódio fora convertido em momento de paz pela tomada de consciência coletiva. O mal, representado pelas mãos cheias de pedras, cai por terra ao som do impacto das mesmas ao solo. E assim Jesus acolhe aquela que, pela lei, estaria desprezada e condenada pela sociedade hipócrita, dando portanto, uma nova oportunidade para viver, acompanhada de um pedido muito especial: o de não pecar mais.

Recentemente, o mundo inteiro começou a acompanhar o caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento devido a uma acusação de adultério. Como se uma viúva pudesse cometer adultério, como se a mesma já não estivesse livre de seu finado marido. Infelizmente, o que vemos é a continuidade indesejável do legalismo, da contradição dos discursos, dos falsos testemunhos, do horror da injustiça, da barbárie e tantas outras mazelas que não vale a pena citar aqui. Os que condenam a iraniana repetem a história da mulher adúltera de João capítulo 8. A diferença, é que no caso bíblico, o adultério havia sido consumado.
Fico verdadeiramente incomodado quando vejo pessoas fazendo uso tendencioso e utilitarista do nome (e também da Palavra) de Deus para abrir acusações contra outros indivíduos, sem atentar que também não passam de meros pecadores. Meu Deus, como é fácil acusar, prender, difamar, matar alguém! E como é difícil fazer justiça num mundo repleto de injustos! As vezes temos a sensação de que Deus não está nem aí para os nossos problemas e que temos que resolver tudo a nosso modo.

Mas não é só no mundo secular que encontramos acusadores. Na igreja vermos indivíduos que, mesmo após anos e anos escutando a pregação do Evangelho (melhor seria que ouvissem!), do amor de Deus, ainda estão distantes daquilo que o Evangelho propõe, que é a revolução do caráter através do exercício verídico do amor. Pessoas que ainda entram no mundo perigoso da hipocrisia que, com os dedos em riste, apontam o erro do outro, como verdadeiros algozes da alma alheia, que enxergam os próprios princípios como certos, mesmo que estejam diametralmente errados. E é assim que, muitas vezes, o Evangelho é transformado em verborragia, em uma disputa panfletária denominacional, de ações autopromocionais e meramente interesseiras, desprovidas dos propósitos cristãos.


Fico a imaginar Jesus se levantando em nosso meio e nos questionando que tipo de cristão / discípulos, estamos formando. Se o que pregamos, é o que de fato vivemos. Se somos amáveis a ponto de exalar o perfume de Cristo, se sabemos acolher o outro como Jesus acolhe (vide Lucas 15, 2), se aprendemos a perdoar, como Cristo nos perdoou no alto da cruz!

É tempo de deixarmos Jesus escrever, na areia de nossas efêmeras vidas, uma nova história, repleta de propósitos que nos alimentem pela fome e sede de justiça incorruptível, para que assim brote em nós o verdadeiro sentido de sermos o sal da terra e que possamos ser, a cada dia, agentes beneficentes e transformadores deste mundo.

Por Marcondes Junior

1 comentários:

Geise Carla disse...

Concordo plenamente..Deus t abençoe

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