terça-feira, 22 de junho de 2010

Reverência, coerência e educação


A maioria das pessoas incomodadas com o mau comportamento de alguns poucos nas celebrações coletivas da Ibab me procura fazendo referência e paralelo ao comportamento mais respeitoso que se pode observar nas salas de teatro e cinema. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com os espetáculos artísticos e culturais conhece as regras que preservam a boa qualidade dos eventos: os horários devem ser respeitados; os celulares devem estar desligados; crianças não entram; conversas são interrompidas por um psiu! coletivo; e os que, por alguma razão, precisam se deslocar durante o espetáculo recebem olhares de reprovação. No teatro, por exemplo, quem chega atrasado fica de fora, aguardando para entrar durante o intervalo. Os artistas no palco recebem como insulto grave qualquer desrespeito às regras tácitas, e não poucos se sentem pessoalmente ofendidos pelos que as desrespeitam.
A comparação entre o comportamento das pessoas que participam dos eventos artísticos, culturais e esportivos, com as que participam dos cultos e celebrações religiosas obedece à lógica do tipo "se a gente respeita a casa de espetáculos, quanto mais a Igreja, a casa do Senhor" ou "as pessoas respeitam mais os artistas do que Deus".
Isso me faz lembrar o comentário que recebi de um irmão quando, pela primeira vez, subi ao púlpito usando camisa e gravata, dispensando o paletó: "Você faria isso se fosse se encontrar com o Presidente da República?". Minha resposta, que na ocasião calei, seria: "Deus não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está aparente, e Deus vê o coração", e arremataria comentando que Jesus ensinou que, para adorar a Deus, não importa o terno ou o gravata, pois "Deus é Espírito, e importa que os que o adoram, o adorem em espírito e em verdade".
A velha noção de "reverência na casa do Senhor" já não encontra muito espaço no meu coração. Primeiro porque o conceito de reverência remete a uma relação protocolar e impessoal, onde não há espaço para espontaneidade e intimidade, próprias das relações afetivas, que buscamos, inclusive e principalmente, com Deus. Também porque o auditório para a celebração cristã não é "casa do Senhor", pois "Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas no templo de pedras vivas, construído por Jesus em sua ressurreição, que por isso mesmo atende pelo nome de corpo de Cristo".
As razões que tenho para me comportar adequadamente, seguir as mí nimas regras sociais, respeitar as pessoas responsáveis pelos eventos em que participo e acatar suas orientações, não apelam para motivos como "a majestade e a santidade do nome do Senhor nosso Deus". No meu caso, faço o que faço por pelo menos duas razões.
A primeira é que acredito na necessidade de coerência: quando vou ao cinema, quero assistir ao filme; no estádio, quero assistir ao futebol; e na celebração cristã, quero dedicar minha atenção a Deus. Como pode ver, sou pragmático, não gosto de perder ou desperdiçar tempo e oportunidades, e não me agrada deixar escorrer entre os dedos possibilidades que não voltam nunca mais. William Temple disse que "cultuar é avivar a consciência pela santidade de Deus, alimentar a mente com a verdade de Deus, purificar a imaginação pela beleza de Deus, abrir o coração ao amor de Deus e devotar a vontade aos propósitos de Deus". Não acredito que isso seja possível num ambiente repleto de distrações e gente displicente.
A segunda razão é educação mesmo.

Autor: Ed René Kivitz - Pastor da Igreja Batista de Água Branca

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