quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Teologia Estepe e Teste Vocacional

Hoje eu estava pensando em vocação. Vocação significa chamado, e é coisa séria. Principalmente quando falamos de uma vocação divina, quando Deus nos chama de alguma forma para algum ministério, lugar, profissão etc.

Muita gente que eu conheço já passou dos 20 e não sabe o que quer da vida. Alguns passaram dos 30. Alguns, talvez, morram sem saber. Outros recusam-se a morrer sem descobrir a que vieram, e, para estes, existem os testes vocacionais, questionários de perguntas óbvias, que levam a conclusões pouco satisfatórias e que permitem que você saiba o resultado enquanto está respondendo. Ex:

1. Você prefere visitar o Museu da Língua Portuguesa ou ficar em casa preparando uma buchada?

2. Você prefere ver um clipe de Cyndi Lauper ou percorrer uma trilha ecológica?

3. O que você gostaria de ganhar de seus pais: um animal ou uma luneta?...

Depois que você "descobre" que gosta de música, idiomas e animais, surge a dificuldade cruel em saber se você vai alfabetizar macacos, criar um coral de papagaios ou virar cantor de fado ou de música sertaneja. Daí você volta para a primeira categoria: os que provavelmente vão morrer trabalhando insatisfeitos e se acostumarem com o que fazem porque paga razoável e fingindo que se encontrou. É a vida! Mas quem sabe você não encontra uma paixão pelo que faz e segue em frente?

Como se reconhece um chamado? Isso é muito subjetivo, o que torna as conversas sobre o tema muito mais interessantes. Já conversei com muitos profissionais a respeito de por que eles fazem o que fazem ou são o que são hoje em termos de profissão, ofício, ministério, etc. e se sentem felizes; e sobre como descobriram que era isso que eles queriam fazer, e as respostas são muito diferentes. O segredo, no entanto, parece ser, na maioria dos casos, na base da tentativa e erro.

Há pessoas que têm uma determinada formação e exercem uma atividade totalmente distinta, e com paixão, como alguém que conheço que é formado em Psicologia e ensina História, outro que largou a faculdade de Medicina, contrariando toda a família, para ser pastor, e outros que se formaram em algum curso e têm atividades no Judiciário e em outras repartições públicas. Tive um professor, que é Promotor de Justiça, que fez três faculdades até descobrir o que realmente queria ser: ele lutou por isso e chegou lá. E vi uma mulher que foi para a área de Biologia estudar micróbios por causa dos problemas de flatulência que tinha.

Outras pessoas são peculiares: parece que nasceram para o que fazem, têm certeza disso, começam e vão até o fim. Isso me parece raro, admirável. Mas acho que não conheço ninguém assim.

Conversando com seminaristas e pastores, já ouvi várias histórias de como se sentiram chamados para a obra de Deus, para chamados pastorais, missonários, ministeriais... Nesses papos, lembro-me de um trecho engraçado:

- Beltrano, às vezes as pessoas me perguntam por que não sou pastor ou advogado; ou por que, pelo menos, eu não quis fazer seminário, apesar de já ter sido convidado e ter ouvido muitas sugestões nesse sentido. Eu não quero advocacia ou pastorado para mim, acho duas coisas muito bonitas e admiro muito quem exerce esses ofícios com honestidade, e vivem deles, mas, sinceramente, não vejo como coisas para mim, não combinam comigo, não me atraem. E você, como foi que descobriu sua vocação?

- Eu estava estudando para o vestibular de uma faculdade, para um curso de nível superior, e orei assim: “Senhor, se eu não passar no vestibular, eu vou entender que está me chamando para estudar Teologia”.

Como?! Teologia e seminário são uma espécie de “estepe” para vestibulandos fracassados? Uma coisa assim... “Deus, se eu não prestar pra mais nada nessa vida e estiver inteiramente convencido disso, eu vou ser pastor?”. Pastorado é um “seguro-desemprego”? Ao ouvir isso, é difícil conter a gargalhada, tanto que quem me disse isso, disse rindo. E tenho certeza de que, por mais esquisito que pareça, ele está no lugar certo. E tem gente que, além de pôr a Teologia como plano B, ainda pede para Deus abençoar e passar no vestibular para o plano A – e pede oração a toda a igreja. Nessa hipótese, confesso que nem sei se devo orar para que passe no vestibular, já que põe o seminário como uma ideia pouco desejável!

Não descarto de que muitos chamados genuínos acontecem assim, como “planos B”. (Mas não deixa de ser hilário!) Até por que um cara muito corajoso (e muito mole), rezou, séculos atrás, rogando que se fosse salvo da tempestade que desabava sobre ele, entregaria-se à vida eclesástica... Foi o cara que depois pregou as 95 Teses na porta de sua igreja e fez explodir a Reforma Protestante. E podemos negar, apesar de engraçado, e da aparente (in)disposição de ir, que ele foi um vocacionado por Deus como muitos que estão por aí abençoando vidas?

Professor, advogado, palhaço, vendedor ambulante, policial, comerciante, chapeado, pastor ou o que for, seja sempre dedicado. E seja sempre uma bênção. Como cristão, ainda que você não saiba o que quer fazer na vida, tenha em mente:

“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação. – 2Pe 2. 9-12

Postado por Avelar Jr.
Também publicado no Não, Obrigado!

 

1 comentários:

Bruno Luiz disse...

maravilha...
como vc falou...é se meter por aí e deixar Deus te mostrar que tipo de soldado vc é, lá mesmo, no campo de batalha.

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