quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Falar de Deus



[Deus]… é a mais carregada de todas as palavras humanas. Nenhuma tem sido tão aviltada, tão dilacerada. Precisamente por isso eu não posso renunciar a ela. Todas as gerações humanas fizeram passar sobre esta palavra o peso de suas angústias; esmagaram-na contra o solo; por isso ela jaz no pó, esmagada pelo peso de todas. As gerações dos homens, com suas divisões religiosas, dilaceraram a palavra: por ela mataram e por ela morreram; ela traz em si as marcas de todos eles, o sangue de todos eles. Onde poderia eu encontrar palavra igual a esta para designar o Altíssimo! Se usasse o mais puro e mais brilhante conceito do mais profundo tesouro dos filósofos, encontraria ali apenas uma imagem descompromissada, mas não a presença daquele a quem me refiro, daquele a quem as gerações dos homens honraram ou rebaixaram com todos os horrores da vida e da morte…
[Por isso] temos que respeitar aqueles que a rejeitam, por se rebelarem contra as injustiças e loucuras que tanto gostam de se apoiar na autorização de ‘Deus’; mas não podemos abandoná-la. É bem compreensível a proposta de muitos, de que durante algum tempo não se fale das ‘últimas coisas’, a fim de redimir as palavras maltratadas! Mas dessa forma elas não serão redimidas. Não podemos lavar a palavra ‘Deus’, nem podemos remendá-la; mas podemos levantá-la do chão, manchada e dilacerada como está, e erguê-la sobre um momento de grande preocupação.

- Martin Buber, citado por Hans Küng em O Princípio de Todas as Coisas, Editora Vozes, 2009.

1 comentários:

Gilmara Coletto disse...

João belíssimo texto!!

Espero que um dia possamos dar o devido respeito e valor a essa palavra que apesar de tão simples é ao mesmo tempo Oasis em um dia quente!!! Que possamos levantá-la do chão, manchada e dilacerada como está, e erguê-la sobre um momento de grande preocupação.

Postar um comentário

Deixe um comentário

 
Pesquisa personalizada