terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Deus que sofre conosco



Quem já não ouviu ou mesmo não fez a seguinte pergunta: “Se Deus existe, porque então ele não põe fim a tanta injustiça e a tanto sofrimento que há na terra e entre os seres que nela vivem?”. Se pararmos e pensarmos nessa pergunta, observaremos que a mesma tem sua razão de ser, proceda ela da boca de alguém que se diz ateu, deísta ou livre pensador. Essa indagação ocorre porque somos pessoas que querem encontrar razão na vida, queremos saber o sentido para o qual ela existe, queremos compreender o quê ou quem deu a ela origem, queremos entender a causa de uma dor, queremos decifrar o porquê do sofrimento pessoal ou alheio e muitas outras coisas. E, no que se refere à vida, incomoda-nos o fato de que a dor ou o sofrimento, de uma forma ou de outra, voluntária ou involuntariamente, nela esteja presente. E além do desconforto que a própria dor já causa por si mesma, incomoda-nos mais ainda o fato de não termos alguém que nos ajude a tratar dela e com ela. Também nos deixa bastante desconfortáveis a terrível expectativa de não poder amenizá-la ou superá-la.

Caríssimos leitores, tomando como base de análise as “imagens”, ou melhor, as “caricaturas” de Deus na Pessoa de Jesus de Nazaré que nos tem sido atualmente apresentadas, é possível observar que a pergunta, lançada no início de nossa breve reflexão, além se agigantar ainda mais, acaba por ecoar com maior intensidade nos ouvidos e na alma de quem sofre, pois em grande parte das pregações (nem sempre fiéis ao contexto bíblico geral ou particular; ou, em alguns casos, especulações acerca de “Deus”), focaliza-se Jesus numa única perspectiva; ou seja, àquela que o limita a alguém que vem ao mundo somente para por fim de forma definitiva à dor e ao sofrimento enquanto vivemos aqui, esquecendo-se que foi o próprio Jesus que disse: “Neste mundo experimentareis a aflição, mas tende confiança. Eu venci o mundo!” (Jo 16.33).

Desta forma, quando isso acontece, quando somos apresentados a um “Deus” que somente serve para solucionar (e rápido) o problema da dor no tempo em que aqui vivemos, acabamos sendo levados a conceber a ideia de um “deus anestésico”, que existe para nos impedir de experimentar qualquer tipo de sofrimento. Nesse sentido, a cruz de Cristo, de símbolo do amor sacrificial, torna-se mero objeto estético de um mundo que se rende às superstições, aos modismos e à magia.

Antes de continuar precisamos deixar claro que não estamos aqui fazendo qualquer tipo de apologia cega ou fatalista ao sofrimento e muito menos querendo que as pessoas tenham a visão de um “deus masoquista”. Todavia, queremos que todos saibam que, segundo as Escrituras Sagradas, o Deus Todo Poderoso não é somente alguém que possui o poder de criar os céus e a terra, como também não é alguém que vive exclusivamente para operar milagres. Ele é, também, alguém que compreende a nossa dor e que sofre conosco, pois foi à cruz em nosso lugar e é ele que diz a todos nós: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”(Lc 9.23).

Finalmente, se aprendermos de Jesus e com Jesus a partir da Palavra de Deus, manifestaremos, por obra do seu poder, um duplo tipo de reação diante do sofrimento; ou seja, aquele que faz com que enfrentemos a nossa dor não com murmuração, mas com a confiança de que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós (Rm 8.18), e que, também, nos dispõem e nos movem a sofrer com os que sofrem com compaixão. Por isso, a pergunta que precisamos fazer não é primordialmente a que já cogitamos na introdução do texto, mas é outra: “Se o Deus Todo Poderoso que a Bíblia revela sofre com e pelos que sofrem, qual a razão em não compreender que na escola da vida coroa de espinhos antecede a coroa de glória e que sangue, suor e lágrimas antecedem a vitória?”. E ainda: “Por que somos tardios em aprender que disciplina antecede o aperfeiçoamento, ‘que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança’ (Rm 5.3,4)?”.



Sobre o autor: Uéslei Fatareli é mestre em ciências da religião na Universidade Mackenzie, compositor e pastor.
Fonte: Ultimato

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