sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Um culto tipicamente pentecostal parte II - O retorno de Mariazinha






Para que o leitor entenda, leia primeiramente o artigo anterior, intitulado " Era uma vez... Um culto tipicamente pentecostal" 
 

Atenção: esta história é baseada em “fatos reais”. Os nomes foram alterados para preservar a identidade das pessoas aqui envolvidas.

Passados alguns meses desde a sua experiência traumática na Igreja Evangélica Pentecostal, irmã Mariazinha já se sentia forte o bastante para visitar outras igrejas novamente sem entrar numa crise de pânico. Fora-lhe preciso muita auto-terapia para superar o incidente, mas irmã Mariazinha finalmente conseguiu aceitar a outro convite – desta vez numa Assembleia de Deus. Isso mesmo! Foi em uma das nossas que os fatos narrados aqui aconteceram.

Era uma igreja de médio porte, bem arrumada e com cadeiras estofadas.

-Muito confortável! – pensou irmã Mariazinha consigo.

Um irmão filmava o culto, que era transmitido por duas televisões de LCD, o que facilitava a visão dos irmãos que sentavam-se mais ao fundo.

Como sempre, o culto, que estava marcado para as 18h, começou com atraso.

O pastor, que não aparentava ter mais de 50 anos, deu início ao culto não exatamente com uma saudação seguida de uma oração, mas sim com um berro para o irmãozinho que cuidava dos microfones e neste momento estava na galeria:

-Ei, Joãozinho! Cadê o microfone do púlpito, meu filho?

O rapaz desceu correndo e trouxe o microfone ao pastor, que cedeu logo a oportunidade à orquestra, e o culto começou pra valer.

Irmã Marizinha, como nunca gostou de sentar nos primeiros bancos em uma igreja desconhecida, escolheu um lugar no fundo e na ponta. Atrás dela havia uma passagem e mais cadeiras atrás.

Quando o culto começou, a igreja ainda estava vazia, mas as pessoas logo começaram a chegar. Apesar de Mariazinha querer se concentrar no culto, era impossível que ela não reparasse nas pessoas que chegavam, pois cada um que passava por trás dela queria levar-lhe alguma coisa embora: uma irmã passou toda espavorida e quase leva o cabelo da irmã Mariazinha embora; um irmão que chegou pouco depois, deu-lhe uma cotovelada na cabeça e nem mesmo se desculpou; e assim foi praticamente durante todo o culto. As pessoas passavam pra lá e pra cá e esbarravam na pobre irmã Mariazinha, que pensava qual era o problema consigo mesma:

-Mas o que está acontecendo aqui? Será que ninguém me viu?

Foi então que ela se lembrou de mais um detalhe: desde que chegara na igreja, ninguém a havia cumprimentado! Todos a olhavam simplesmente como se não a vissem!

Juntando as peças do quebra-cabeças, irmã Mariazinha, chocada, pensou consigo:

-Oh, meu Deus! Não pode ser! SERÁ QUE EU FIQUEI INVISÍVEL?

Num gesto de desespero, irmã Mariazinha retirou um pequeno espelho de sua bolsa e lentamente o levou à altura dos olhos, estando com eles ainda fechados. Ela, na verdade, estava com medo de olhar e comprovar sua invisibilidade.

Devagar, irmã Mariazinha abriu os olhos e... viu sua imagem naturalmente refletida no espelho.

-Ufa! Que susto! É, acho que não estou mesmo invisível... são as pessoas desta igreja que são mal-educadas mesmo!

Decidida a permanecer na igreja até o final do culto e cultuar a Deus independente de qualquer bolsada, pancada ou puxada de cabelos, irmã Mariazinha fez o máximo que podia para concentrar-se no culto.

Foi então que ela percebeu: havia sentado na última cadeira do lugar onde o grupo das irmãs sentava, e havia uma senhora que simplesmente não parava de encará-la. Pensando bem, “encarar” não era a palavra mais adequada para descrever aquilo: a senhora a olhava tão feio, mas tão feio que parecia que ia fuzilar Mariazinha com os olhos!

-Mas o que foi que eu fiz? – pensou irmã Mariazinha consigo.

De repente, num lampejo de percepção, irmã Mariazinha se deu conta: provavelmente ela havia sentado na cadeira cativa daquela senhora e, ao que parece, a irmã carrancuda não estava gostando muito disso.

Como já não havia mais lugares disponíveis, irmã Mariazinha permaneceu ali, sentindo-se mal com tudo e com todos.

Não houve apresentação de visitantes no culto, que foi bastante demorado, por sinal. Quando finalmente o culto acabou, irmã Mariazinha levantou-se o mais depressa que pôde, para evitar ficar careca, ou sem cabeça no momento da saída das pessoas da igreja. Pegou sua bolsa e começou a caminhar em direção à porta de saída. Foi impedida por uma multidão de pessoas que queriam sair todas ao mesmo tempo, sem a menor consideração umas pelas outras. Irmã Mariazinha sentiu como se estivesse no Metrô Sé ás 18h de uma segunda-feira chuvosa...

Muitos empurrões e cotoveladas depois, irmã Mariazinha finalmente conseguiu sair da igreja – sem ganhar um cumprimento sequer – com aquela sensação de que, no que dependesse dela, nunca mais poria os pés naquela congregação.

Ela então pôs-se a pensar em como um visitante não crente se sentiria naquela igreja... Será que ele se sentiria bem recebido? Será que ele voltaria ali? Será que alguma vez ele voltaria numa igreja evangélica novamente? Será que ele aceitaria a Jesus e viraria um crente também algum dia?


Fonte: Blog da Vanessa

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