quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O paradígma de uma vida bem vivida


 
Se tenho toda a fé, grandes ideais, planos magnifícos e maravilhosas visões, mas não tenho o amor que transpira, sangra, lamenta, ora e se declara, eu não sou nada

Se tenho toda a fé, grandes ideais, planos magnifícos e maravilhosas visões, mas não tenho o amor que transpira, sangra, lamenta, ora e se declara, eu não sou nada

Perguntaram à Madre Teresa qual era o segredo de seu sucesso, ao que ela respondeu: “ não sabia que Deus havia me chamado para ter sucesso.” De fato, no mundo das grandes realizações, o ser humano é mensurado pelo que realiza: que número de medalhas que obteve, no caso de um atleta, qual a percentagem de clientes que a empresa angariou no mercado, no caso de um executivo, enfim a lista é infinita.

Tenho observado que no nosso universo religioso, no caso, evangélico, o parâmetro para se avaliar uma igreja, um pastor ou um líder eclesiástico qualquer, está intrinsecamente ligado às conquistas: qual o número de membros de sua igreja? Ou, quantas congregações tem a sua denominação? E assim a avaliação de um “bom ministério”, uma “boa igreja” reduzem-se às questões numéricas, que acredita-se, ser o reflexo de um ministério eficaz.

O mundo pós-moderno é o universo do sucesso. Não se admite o remanso, o espírito reflexivo, o “ser estando”, como diria Caio Fábio. Refletir sobre as atitudes interiores que o motivam a realizar algo é perda de tempo. Não há espaço para o pensar intimista, tudo é milimetricamente orquestrado para a produção.

A sociedade tornou-se, nessa cosmovisão, um lugar meramente utilitário, e por incrível que pareça, moldou as nossas relações humanas. Já observou que os relacionamentos conjugais são definidos a partir dessa premissa: “o que essa pessoa pode me proporcionar?”. Em uma empresa um novo colaborador pensa: “que benefícios posso auferir?”, nas organizações eclesiásticas: “de que forma essas pessoas podem ajudar-me a elevar o meu status social?”.

A questão passa também por uma nova práxis ética, a forma de ser e estar é motivada pelas ambições pessoais e profundamente egoísta: quanto ganho, aonde posso chegar, que status pode me proporcionar, que posição irei galgar, etc.

Vítor Cláudio, psicoterapeuta e representante português na Comissão Permanente de Ética da Federação Europeia das Associações de Psicólogos, diz: “hoje é importante quem “tem”, não é importante quem “é”. Ser íntegro… não interessa… a integridade não se “vê”, por isso valoriza-se o que se tem. Os sistemas relacionais são fundamentados no “ter”. O outro não olha verdadeiramente para nós, mas para o que temos.”

Quando o sucesso é a meta a conquistar, então os meios utilizados pouco importam: o estudante pode “colar”, qual o problema? O que está em causa são as boas notas. Um produto pode ser plagiado, afinal o que vale são os lucros. Um colega pode “puxar o tapete” do outro, “ enfim, pode ser uma ameaça ao meu sucesso.”

Era de esperar que no meio evangélico nas suas multifacetadas denominações e organizações se agissem de forma diametralmente oposta ao nosso sistema secular, ledo engano, em algumas dessas organizações vê-se as mesmas práticas mundanas: líderes autoritários, políticos evangélicos corruptos, crentes antiéticos, igrejas mercadejando o evangelho barateando a graça de Deus, enfim vale tudo nessa arena aonde o valor é o sucesso.

Uma grande parte do universo evangélico decidiu por uma práxis orientada para um ativismo, que gera seres obcecados por eventos, congressos, reuniões, retiros, etc. Tudo isso tem o seu valor na sua devida normalidade, mas quando torna-se um fim em si mesmo em busca de significado, aí temos uma patologia.

Observa-se um grande número de pessoas religiosas, mas nem por isso, melhores em sua humanidade. Pode-se até afirmar que vivemos no século da “espiritualidade,” entretanto, pratica-se uma vivência relacional materialista e secularizada, que paradoxo!

Um homem de negócios perguntou a Eugene Peterson: porque será, pastor, que quando estou conversando com um ministro do evangelho, sinto-me como se estivesse falando com um homem de negócios mas, quando estou perto de um monge budista sinto-me mais próximo de Deus!?

A espiritualidade pós-moderna é individualista, hedonista e narcisista, essa trilogia encaixa-se perfeitamente nos interesses do homem atual. Assim temos uma realidade religiosa que serve aos desejos mais perversos da humanidade decaída: prestígio, poder, dinheiro, status, saúde e sucesso. Tem-se então um mundo de possibilidades e realizações nas diversas “agências religiosas, ao dispor de todos aqueles que a procuram.”

A questão que se coloca é: o que é que conta: o sucesso alcançado a qualquer custo e preço ou no que a pessoa se tornou? As escrituras relatam a vida de um homem que conquistou tudo o que desejou: o direito da primogenitura, a benção do pai, e a riqueza do sogro, entretanto, à medida que multiplicavam-se os seus bens diminuia a sua humanidade: trapaça, mentira, perversidade são sinónimos da palavra usurpador. Realizou os seus objectivos mas maculou a sua santidade, desumanizou-se, perdeu a integridade. Aparentava sucesso mas interiormente sabia que era um fracassado ética e moralmente.

Tomás de Aquino, o proeminente teólogo do final da idade média, quando visitou o vaticano, observou a “glória” da igreja: ouro e bronze expostos em seus majestosos portais, ao que o Papa lhe disse: “agora a igreja não pode dizer não temos ouro nem prata.” Ele respondeu-lhe: “Mas também a igreja agora não pode dizer: “levanta-te e anda.” Ganhou poder e glória mundana mas perdeu toda a sua essência e vitalidade: a presença de Deus.

O Brasil figura entre os países com o maior indíce de crescimento evangélico do mundo, contudo, as mudanças de natureza social e moral não são correspondentes a tal crescimento, conclui-se que crescimento numérico nem sempre é sinônimo de mudança de vida.

Na eternidade quando estivermos perante o Pai Celeste seremos avaliados, não pelo grau de sucesso que tivemos, e sim, pela fidelidade que demonstramos na vivência cristã. Na perspectiva da avaliação meramente funcional o apóstolo Paulo foi um fracasso: morreu decapitado. Na visão divina foi fiel à sua vocação e chamado.

Questionamos então: qual a prioridade fucral na vida? Ou seja, o que é que conta, àas conquistas ou o que a pessoa se tornou como ser humano transformado a semelhança de Cristo? Charles Swindoll transcreve uma carta de uma missionária no Sudão que capta muito bem o valor de uma vida bem vivida: “... Se tenho toda a fé, grandes ideais, planos magnifícos e maravilhosas visões, mas não tenho o amor que transpira, sangra, lamenta, ora e se declara, eu não sou nada. Se tenho o poder de curar todos os tipos de doenças e enfermidades, mas machuco corações e magôo sentimentos por querer o amor que é bom, eu não sou nada. Se escrevo livros e publico artigos que deixam o mundo de boca aberta, mas falho em transcrever a palavra da cruz na linguagem do amor, eu não sou nada. E pior que isso tudo, eu posso ser competente, ocupado, exigente, pontual e bem equipado, mas como a igreja de Laodicéia, causar enjôo a Cristo.”

Portanto, é preciso avaliar como se está caminhando para que ao escrever, pregar ou fazer qualquer outa coisa, não seja o caso de ser encontrado “reprovado.”( 1 cor 9.27). No amor de Cristo.

Por: Josenaldo Silva - Lisboa, Portugal
Fonte: Eclesia

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