quinta-feira, 9 de julho de 2009

Muito obrigado



A
gratidão é uma virtude. Virtude é aquilo que não nos é natural, mas por alguma razão encontrou espaço dentro de nós e, de vez em quando,transborda em gesto na direção dos que nos rodeiam. Não somos, na verdade – e digo por mim –, naturalmente gratos. Os leprosos curados foram dez, mas apenas um voltou para agradecer. Mais naturalmente nos atiramos a desfrutar o presente do que a reconhecer a dádiva de que fomos alvo. Também não nos é natural o reconhecimento de que somos o que somos como resultado de muito investimento imerecido.


Desde o ventre, lugar primeiro de nossa parasitagem existencial, carregamos na alma a tendência de receber o máximo e doar o mínimo, alguns de nós, inclusive, acreditando que os outros têm obrigação de doar sempre. Poucos são os que sabem que não se bastam, que não conseguiriam sobreviver, crescer, amadurecer, florescer e frutificar para a vida sem o esforço, não poucas vezes anônimo e na maioria das vezes não reconhecido, daqueles que nutrem, ensinam, perdoam, perseveram na relação afetiva, subsidiam, compartilham riquezas e transferem créditos. É mais comum encontrarmos em nós mesmos a propensão à vaidade e ao orgulho de quem imagina que está onde está por mérito, esforço pessoal, trabalho árduo e um pouco mais de dedicação do que a daqueles que não chegaram tão longe. Preferimos encarar a vida como conquista, mais do que como dádiva. Temos o que temos porque fizemos por onde, fulano não fez mais que a obrigação, dinheiro não cai do céu, sucesso só vem antes de trabalho no dicionário, e outras expressões, que pululam a mente e o coração dos ingratos.

A gratidão é uma virtude porque acontece somente depois de olharmos para trás e para os lados, e encontrarmos olhares e semblantes de tanta gente que nos abriu portas, ofereceu suporte, caminhou conosco até mesmo em sacrifício de suas próprias aspirações e esperanças. Também é verdade que são raras as pessoas que nos tratam assim. Predomina nas relações a superficialidade dos sorrisos cosméticos, a mesquinhez dos interesses egoístas, a ganância pela vantagem unilateral e o vício da negociação constante. A maioria dos que nos rodeiam não funciona na perspectiva da relação compassiva e solidária, mas da negociação – é dando que se recebe, e quando não há possibilidade de receber de volta nem lucrar, então não há razão para doar.

A gratidão é possível após a experiência da gratuidade: o favor que não é explicado senão pela boa vontade de quem favorece, sem qualquer merecimento do favorecido. De vez em quando, somos invadidos por esse senso de gratuidade: uma alegria que nos faz tremer e imaginar o que teríamos feito para merecer tamanha beatitude; um êxtase que nos arrebata, deixando a indelével lembrança que nos sustenta por dias a fio, mesmo tendo durado poucos segundos; um contentamento que se instala sorrateiro e que nos abraça, no abraço de alguém que amamos; uma quase vergonha de sermos tão bem cuidados pela vida, pelos outros, por Deus, na certeza de que o que experimentamos não se explica pelo princípio da causa e efeito, pois sabemos quem somos e sabemos que desfrutamos de muito mais do que deveríamos desfrutar. A gratidão é também a expressão de uma consciência que foi apoderada pela convicção de ter sido favorecida com abundância tal que jamais poderá ser recompensada. Tem coisa que não há como pagar e, nessas horas, tudo o que se pode fazer é agradecer e sorver o prazer.

Por essas e outras é que aprendi a dizer muito obrigado. Não sei se sou grato, mas pelo menos aprendi a agradecer. Sigo meu caminho dizendo a todos muito obrigado, na esperança de que um dia, de tanto expressar gratidão, Deus me conceda de fato um coração grato. Muito obrigado.

Ed René Kivitz é escritor conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo
Fonte: Eclésia

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