sábado, 16 de maio de 2009

Vergonha dos evangélicos, não do evangelho



Me lembro que quando era bem mais jovem e costumava frequentar a igreja, tinha um enorme receio de ser chamado pelos outros de "evangélico", ou de ser reconhecido como tal. Às vezes isso me dava medo de ir para o inferno, pois eu achava que estava tendo "vergonha da palavra de Deus", e para esses há um lugar reservado lá embaixo com o capa-preta.

Mas o tempo veio esclarecer que o problema não era com Cristo ou com o evangelho. O problema era com os próprios evangélicos. Eu descobri que eu não gostava de ser chamado de evangélico porque eu não gostava de me sentir em associação com o evangélico típico. Eles me davam vergonha. Enquanto fui membro de igrejas, sempre fui muito ativo. Trabalhava mesmo. Pregava o evangelho pra qualquer pessoa quando tinha oportunidade, e às vezes, mesmo sendo uma pessoa reservada, era eu quem criava situações para trazer a palavra. Observando essas coisas, descobri então que não tinha vergonha nenhuma do evangelho, mas sim dos evangélicos.

Na época, impelido por minha já latejante vocação crítico-filosófica, e talvez por uma influência analítica do zodíaco, comecei a tentar compreender no que consistia essa vergonha. Encontrei pelo menos 8 motivos.

1) O evangélico típico é alienado. Ele vive em um pequeno universo onde todas as coisas são explicadas por sua limitada visão gospel do mundo. Ele não lê o que não é gospel. Ele não ouve música que não seja gospel. Ele tenta fazer eventos ridículos e depressivos como a "Noite Dance" depois do culto de sábado à noite para tentar competir com as danceterias e manter os jovens dentro da igreja.

2) Para o evangélico típico, tudo é batalha espiritual. Em todo canto ele vê uma luta de forças entre o bem e o mal, anjos e demônios. Não há lugar para a natureza, para o natural. Satanás é quem faz tudo de ruim acontecer. Conheci uma evangélica que orava para consertar sua máquina de lavar. Vi uma outra, há poucos dias atrás, que gritava "pra trás de mim, Satanás!", só porque uma criança havia engasgado e estava tossindo.

3) O evangélico típico sofre de um Complexo de Messias. Quando inserido em um contexto não-gospel (trabalho, escola, etc), ele sempre se acha o salvador do grupo. Ele se acha "a" luz que ilumina as trevas. Ele sempre se acha "o agente" do Espírito, aquele que será usado por Deus pra converter todo mundo.

4) O evangélico típico é culturalmente hipócrita e etnocêntrico. Ele finge ter desprezo pelas coisas "do mundo", mas sempre tenta incorporá-las ao seu mundo gospel, se tornando assim umas das coisas mais esquisitas e ridículas do mundo. Não obstante, ele insiste em pensar a cultura e outros grupos a partir de seus próprios valores. Qualquer estilo musical, por exemplo, se torna "gospel". Rock gospel, pagode gospel, mpb gospel, mantra gospel. Danceterias gospel. Existem agora até grifes de roupa gospel. É o gueto gospel. Mas as mesmas coisas, se não forem "gospel", não prestam.

5) O evangélico típico acha que vai dominar o mundo com a "adoração". Eles entoam mantras catárticos, nos quais expressam seus desejos sexuais reprimidos, exaltam a si mesmos e dizem que estão "adorando". Adoram falar sobre si mesmos em supostas músicas de "adoração", algo tipo "eu vou te amar, Senhor" (mas por que não amam agora, no presente, mas sempre prometem que vão fazer as coisas no futuro?). Ficam cantando sobre coisas desconexas, como fogo misturado com chuva, água e rio, e fazendo gestos como se estivessem jogando água sobre si mesmos. Ficam o tempo todo pedindo chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva, chuva. Só não me pergunte em que consiste essa chuva. Ninguém deve saber.

6) O evangélico típico sempre acha que tem razão. Isso é uma decorrência do item n° 1, a alienação. Quando não consegue convencer alguém pela via da argumentação, ele tenta explicar pelo inexplicável - diz que "o espírito" vai convencer o outro de que ele, o evangélico, está certo.

7) O evangélico é auto-referencialmente idólatra. Os critérios que eles utilizam para julgar os católicos como idólatras, se aplicados sobre si mesmos, determinam sua sentença. Criticam a infalibilidade papal, mas se alguém criticar os papas evangélicos "ungidos" de Deus, eles lhe rogam uma praga gospel biblicamente (mal) embasada: "Ai de quem tocar no ungido de Deus!".

8) O evangélico típico sofre de um Complexo de Mártir. Ele sempre acha que está sendo perseguido, injustiçado, que está sofrendo ameaças, e que uma grande conspiração mundial está sendo formada para perseguir a igreja verdadeira, que é a dele. Inclusive este texto, para ele, é uma dessas perseguições. Para ele, nada do que está sendo dito aqui é verdade, mas pura perseguição "por causa da justiça".

Foi ao considerar essas coisas que descobri que não estava tendo vergonha nenhuma do evangelho. Eu não queria, na verdade, era ser confundido com pessoas assim. E essas são também algumas das razões pelas quais hoje evito evangélicos típicos. Pois, como afirmava Sêneca, um filósofo estóico do I século, "é preciso frequentemente recolhermos-nos em nós mesmos, pois a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba o nosso equílibrio...".

Fonte: Grupo Kerygma

4 comentários:

Pr. Sérgio disse...

João Paulo Fernandes, creio que está havendo um pequeno equívoco. Não, na verdade é um grande equívoco de sua parte, quando relaciona todas essas coisas com os "evangélicos típicos". O que seria um "evangélico típico"? Creio que seria alguém que demonstrasse, em seu comportamento e em seu caráter, as características próprias de quem nasceu de novo em Cristo Jesus. O que você fazia, por exemplo, ao pregar o Evangelho sempre que tinha oportunidade (e até quando não tinha), são características pertencentes a um evangélico verdadeiramente típico. Não devemos confundir, jamais, "estereótipos" com "tipos". Os estereótipos são como clichês ou chavões religiosos, que qualquer um pode aprender e repetir como se fosse papagaio. São práticas de pura "religiosidade", costumes religiosos e invenções "gospel" das mais aberrantes, distantes da Palavra de Deus e da verdadeira doutrina evangélica. Não há, da parte de tais "evangélicos", a preocupação com a conversão, a modificação, a santificação e a consagração. Não pregam sobre a salvação das almas, mas ensinam uma espécie de "acomodação" a um movimento religioso, "ministério" de louvor, "ministério" de danças,
"ministério" de artes teatrais e outras bobagens. É disso que você tem vergonha! Eu também tenho, e dou graças a Deus que o movimento de que faço parte (os Batistas Regulares)são até discriminados como não tendo o poder do
Espírito Santo, por não defender e nem praticar essas aberrações. Portanto, não se envergonhe de ser considerado um "evangélico típico", porque o verdadeiro crente em Jesus tem o próprio Jesus como o seu exemplo típico!

João Paulo Fernandes disse...

Pr.Sérgio

Agradeço de antemão as suas palavras bastante elucidativas e baseadas em princípios verdadeiramente bíblicos, autênticos e que muito falta nas igrejas atuais.
Primeiramente que deixar claro que o texto não foi escrito por mim, mas presumi-se que se postei no meu blog, venho de fato a concordar em alguns pontos, se não na maioria deles.
Acredito que o que gerou o mal entendido, foi à utilização do termo "evangélicos típicos", ou “típico” como queira. Mas vou tentar esclarecer.
Creio que o que autor do texto, quando se referiu ao evangélico “típico”, o termo “típico”, talvez seja o mesmo ou equivalente ao que o senhor chamou de "estereótipos". Se pegarmos o termo “típico” ele de certa forma pode ter um significado para mim, quanto para o senhor, isso porque realmente não sabemos o sentido dado pelo o próprio autor. Visto que você mesmo afirmou: “CREIO que seria alguém que demonstrasse, em seu comportamento e em seu caráter, as características próprias de quem nasceu de novo em Cristo Jesus.”
Aqui indago, mesmo um evangélico típico, analisando dentro de sua concepção, o que impede que o mesmo enverede nas práticas da “religiosidade”, nos costumes “gospel”, o que convenhamos é algo bastante comum, mesmo entre os próprios Batistas Regulares, como sou testemunha?
Mas creio que o que importa pastor, é que concordamos em algo que está relacionado intimamente com o âmago do texto. Como o senhor mesmo demarcou: “É disso que você tem vergonha!”, “da espécie de "acomodação" a um movimento religioso, "ministério" de louvor, "ministério" de danças,
"ministério" de artes teatrais e outras bobagens. E acrescento, dessas práticas religiosas sem escrúpulos, daqueles que mercadejam a palavra em nome do Deus altíssimo e muitos são os que se deixam levar.
Eu pastor Sergio, estou com as escrituras quando afirma : “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego.” Mas dos “evangélicos”...eu MORRO de vergonha! Salvem o Evangelho dos “evangélicos”* !!!
Nele, que se envergonha dos “evangélicos”.

João Paulo Fernandes

* Assim como pastor Ed René Kivitz, utilizo o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva.

Sugiro que o senhor possa escutar essa tão bela pregação do pastor Ed René Kivitz, intitulada: “O evangelho dos evangélicos e o evangelho do Reino de Deus”. Você pode encontra-la no link logo abaixo.

Link da pregação:

http://www.4shared.com/file/91533399/47426bd3/Ed_Rene_Kivitz_-_O_evangelho_dos_evanglicos.html?s=1

claudio pimenta disse...

Hoje eu estava visitando uns amigos e estavam ouvindo uma musica do fernando mendes muito comum em bares e bregas que achei muito interessante


o refrao diz :

"nao adianta ir a igreja rezar e fazer tudo errado"se quiser conferir um breguinha legal onde podemos aproveitar algumas partes

http://www.youtube.com/watch?v=dNaqSEYqZqw

Anônimo disse...

Perfeito!!! Estou convivendo com uma situação dificilima, já que uma pessoa da minha família que se diz "ungida" de Deus e que não está e nunca teve competencia para cuidar da pp vida, e a quem prestei ajudas significativas vem me amaldiçoando, desrespeitando, praquejando,chamando de satanás etc. Penso que ela está desequilibrada. Juntando todos os dias da minha vida, que não são poucos, jamais ouvi tanta coisa ruim. Tenho rezado por ela. Lamento que algumas religiões consigam fazer tanto estrago na vida das pessoas.

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