quinta-feira, 12 de março de 2009

Os dois caminhos e o mágico celestial

Há alguns dias li a passagem do Evangelho de Mateus em que Jesus fala sobre a porta estreita e o caminho largo (Mt 7), e, decidido a pregar sobre ela a minha modesta congregação, pensei em como esse é um texto difícil de ser transmitido hoje, já que ninguém está ocupado em saber qual é o caminho que leva a vida eterna.

E o curioso é que esse não é um fenômeno exclusivamente secular. A igreja tem se esforçado mais em municiar o crente com equipamentos e conhecimentos que o ajudem a viver bem aqui e agora do que em instruí-lo a escolher a porta e o caminho estreito a fim de garantir-lhe a vida eterna.

Essa mudança de ênfase do céu para a terra, que tem um longo caminho histórico desde a renascença até hoje, acelerou-se espetacularmente nas últimas décadas. Não há muito tempo, na igreja falava-se abundantemente em salvação, arrebatamento, volta de Jesus etc., o que parecia demonstrar que aqui ainda era um refúgio para uma tendência de secularização integral que começava a tomar conta das pessoas, cada vez mais.

No mundo, a rendição era completa, embora ninguém notasse sua dimensão. Não importava o quão religiosas ou místicas as pessoas se apresentavam, porque, na vida prática, a cantiga era uníssona: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Não há outra vida; se é para se ser feliz, sejamos felizes hoje. Comamos e bebamos, que amanhã morreremos. É certo que as pessoas não deixaram suas religiões e crenças, porém, passaram a viver de modo absolutamente desconectado dos pressupostos que afirmavam crer. Mantinham suas crenças tal qual Atenas mantém as ruínas de sua acrópole e as imagens de seus deuses, que, se não pautam o modo de viver de ninguém, ao menos servem de atração cultural para o deleite dos turistas.

O notável é que essa tendência começou a penetrar na igreja. Hoje não há nada mais tedioso para uma audiência evangélica do que falar em estradas largas e estreitas. Eu quero alguém que me diga que vou vencer, que serei próspero -- não na eternidade, mas hoje! Algum ungido que me garanta as melhores fórmulas de sucesso que estiverem à disposição. E com as bênçãos do Deus de Abraão. É curioso como hoje o sobrenatural está a serviço dos interesses mais materiais que se possa imaginar. Como é bom dispor de um grande mágico celestial, que me concede tudo o que desejo desde que eu consiga apertar o botão certo.

Não quero repetir a cantilena de tripudiar sobre as fraquezas teológicas da igreja, dissecando impiedosamente suas mazelas para ostentar tolamente uma superioridade ética discutível. Falar mal da igreja e trombetear suas mazelas também é uma tendência de nosso tempo -- arrogante, insuportável e estéril. O que desejo apontar é um fenômeno cultural que tem chamado a atenção de diversos pensadores na igreja e, ao que parece, será irreversível se não o enfrentarmos à altura.

Sou otimista, é verdade; afinal a igreja já enfrentou muitos momentos decadentes na história e sempre ressurge revitalizada, revigorada e mais comprometida. Se sobrevivemos, por exemplo, a uma figura como o papa Alexandre VI, haveremos de sobreviver a qualquer coisa. Porém, é a história que mostra também que a reação tanto demora quanto tardam as vozes proféticas necessárias para alimentá-la.

Créditos: João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

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